Ferreiro em oficina com peças metálicas sobre a mesa e janela iluminada ao fundo.
Ferreiro em oficina. Fotografia por Clark Young - Unsplash

Uma maneira de pensar

A alquimia é geralmente entendida como um esforço científico e filosófico medieval com o objetivo prático central de encontrar um método para transformar metais em ouro. Os exercícios primitivos em química, no entanto, eram apenas as manifestações práticas de uma busca mais antiga, quase religiosa, por aquilo que pode ser chamado de fonte da juventude: a missão final do alquimista era descobrir os segredos da matéria e da própria vida, de modo que ela pudesse ser prolongada indefinidamente.

Desde longa data a alquimia tem sido de interesse para historiadores da ciência, antropólogos e uma série de outros estudiosos com interesse no impulso religioso humano e sua preparação de rituais voltados para a transformação de indivíduos e grupos sociais. É um tema talvez melhor abordado a partir de quatro vias distintas de investigação: a primeira tem a ver com a etimologia da palavra; a segunda diz respeito à sua história; a terceira foca a prática da alquimia e seus fundamentos ideológicos; a quarta trata da alquimia como um fenômeno global com um conjunto de preceitos universais identificáveis ​​através da comparação transcultural. A história da alquimia deve, em suma, ser entendida a partir de um ponto de vista repleto de nuances que leva em conta sua complexa história e difusão global.

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Mais do que simples precursora da ciência moderna da química, é uma maneira de pensar sobre a relação entre humanidade e natureza que enfatiza a importância da transformação em ambas. Também se concentra no papel que a entidade humana desempenha na mediação dos processos pelos quais as substâncias – naturais e humanas – são transmutadas ou elevadas a uma forma superior. A palavra alquimia entra em nosso idioma por meio de uma longa jornada filológica que se assemelha, em alguns aspectos, à evolução da prática no mundo ocidental. Seu núcleo semântico vem de um entre dois possíveis termos gregos: o primeiro, chymeia, é um substantivo denotando algo derramado ou infundido. O segundo, chêmeia, é um substantivo que se refere especificamente à transformação de substâncias metálicas. Um desses provavelmente foi a fonte do termo árabe al-kîmiyâ, que entra no léxico do latim medieval como alchimia, no francês antigo como alkemie, no português como alquimia. Esta evolução linguística fornece algumas pistas sobre a origem e difusão da arte na Grécia, norte da África e Oriente. Acredita-se tenha florescido no Egito por volta de 300 a.C., época em que a investigação científica estava em pleno surgimento no mundo helenístico.

Cerca de quatro séculos e meio depois, estudiosos islâmicos adotaram a tradição e acrescentaram a suas concepções cosmológicas, preceitos e práticas, possibilitando sua disseminação por toda a Europa no século XIV. Embora considerada de mérito questionável pelas autoridades eclesiásticas cristãs, a alquimia havia se tornado uma parte vital do ethos intelectual europeu nos séculos XVI e XVII. Muitas das personalidades conhecidas, incluindo, na Inglaterra, Sir Walter Raleigh, Sir Isaac Newton e o rei Carlos II, viam de forma positiva suas dimensões esotérica e exotérica.

Mapeando as dinâmicas ocultas

Além disso, o simbolismo da alquimia teve um impacto profundo nas tradições literárias e artísticas do Ocidente. Evidências de sua influência podem ser vistas nos trabalhos de William Shakespeare, John Milton, Johann Von Goethe, John Dryden, Victor Hugo e William Butler Yeats. Processos alquímicos e simbolismo provaram ser de interesse duradouro para estudiosos, artistas e literatos até os tempos atuais. No século XX, forneceram ao brilhante psicólogo Carl Jung um modelo para a compreensão dos processos associados ao amadurecimento da psique humana, e continuam a inspirar o trabalho de muitos psicanalistas junguianos contemporâneos. A busca alquímica pela chamada pedra filosofal (a substância que transformaria metal em ouro, emblemática daquilo que é primitivo e em estado de eterna estase) e o elixir da vida (a poção que confere saúde ilimitada e vida eterna) permanece inspiração para muitos interessados, alguns dos quais veem nesses diretrizes para a busca humana pela comunhão com a natureza e o sobrenatural.

A alquimia pode ser descrita como um sistema cosmológico, filosófico e metafísico que percebe o mundo criado e tudo nele como vibrante e evolutivo. Para o alquimista, os processos de desenvolvimento que governam a vida não são facilmente discerníveis sem o auxílio de um entendimento especial; é objetivo da alquimia descobrir e mapear essas dinâmicas ocultas. Ao fazê-lo, o alquimista ganharia o conhecimento que possibilita a administração efetiva do mundo. Isso inclui não apenas a capacidade de ser um guardião passivo, mas as habilidades necessárias para se envolver em uma intervenção proativa que pode trazer à plenitude aquilo que não atingiu maturação. Assim, o alquimista é aquele que entende os processos da natureza em um nível íntimo e tem a capacidade de usar esse conhecimento para promover a metamorfose cósmica, ambiental, social e individual.

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“Você é um alquimista, faça disso ouro.” – William Shakespeare  (1564–1616)

A dinâmica da alquimia consistia em observação, coleta de dados empíricos, experimentação e contemplação das verdades invisíveis que estavam por detrás dos fenômenos que podiam ser compreendidos com os cinco sentidos humanos. Formulada em uma adaptação tanto de termos egípcios, greco-romanos, islâmicos, indianos, taoístas como também cristãos, a meta primordial da alquimia parece ter sido relativamente uniforme: isto é, descobrir as forças que governam a unidade, a diversidade, a estase e o fluxo no mundo. Tendo-os dominado, o alquimista possuiria o conhecimento do elemento primordial a partir do qual toda a matéria foi criada e a capacidade de distinguir entre o mutável e o imutável, o finito e o infinito.

Com o tempo, a arte desenvolveria duas trajetórias distintas. A primeira foi limitada ao estudo de processos naturais (química). A segunda – consistindo de alquimia e disciplinas herméticas aliadas – estaria preocupada principalmente com as dimensões esotéricas e espirituais desses processos. No folclore alquímico do Ocidente, a prática é muitas vezes caracterizada como uma busca pela substância que tem o poder de aperfeiçoar aquilo que é incompleto e tornar nobre aquilo que é básico. Este elemento ou composto é superior e valorizado acima de todos os outros. É conhecido por muitos nomes, o mais famoso dos quais é a pedra filosofal. Para produzi-lo, a matéria básica – seja animal, vegetal ou mineral – deve ser reduzida à matéria prima (a substância primária). Essa morte simbólica é precursora da geração de um novo elemento através da coagulação.

Um processo de transformação

Era um processo entendido como envolvendo mudanças internas e externas, na medida em que se esperava que uma alteração no estado de consciência do alquimista acompanhasse a manipulação de elementos físicos. Uma descrição mais precisa dos objetivos, filosofia subjacente e processos associados à alquimia é difícil. Muitos dos textos produzidos por seus praticantes são escritos de uma maneira que encobre essas informações em alegorias e símbolos, estratégia destinada a esconder seus segredos do público, exceto para aqueles que haviam sido iniciados em seus mistérios.

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Alguns escritos parecem empregar uma linguagem alquímica que consiste em imagens comumente compartilhadas e facilmente inteligíveis; estes incluem o dilúvio bíblico (simbolizando a dissolução), o pelicano (simbolizando o instrumento usado para destilar o elixir vitae), a fênix (simbolizando o renascimento), sangue (simbolizando o mercúrio como solvente), o ovo (a matriz na qual a pedra filosofal é feita), e a árvore filosófica (emblemática do crescimento e do processo alquímico). Outros escritores parecem se deliciar em confrontar o leitor com uma série confusa de símbolos polivalentes que desafiam a classificação precisa e interpretadores pretensiosos. Certos escritos alquímicos permanecem hoje virtualmente inescrutáveis ​​até mesmo para os especialistas mais altamente treinados. Certos elementos universais foram identificados na prática alquímica através das culturas. Uma visão particularmente atraente das origens da alquimia foi proposta em meados do século XX pelo historiador das religiões Mircea Eliade, que as traçou até os rituais e habilidades especializadas dos primeiros metalúrgicos.

Eliade acreditava que esses artesãos – junto com os agricultores e aqueles que aprenderam a transformar argila úmida em vasos, tijolos e obras de arte – foram os primeiros a desenvolver uma consciência da capacidade da humanidade de fazer intervenções estratégicas capazes de alterar os ritmos da natureza. Através do uso do fogo, eles poderiam acelerar o desenvolvimento daquilo que cresceu na terra, e encurtar o intervalo de tempo necessário para levar as coisas à perfeição. Com o tempo, essa ideia foi aplicada aos seres humanos e ao cosmos, dando origem a distintas tradições alquímicas na África, no Oriente Próximo, na Ásia e na Europa. O ferreiro passou a ser visto como uma figura poderosa, com conhecimento especializado de como forjar ferramentas que poderiam gerar vida ou causar a morte. Os primeiros metalúrgicos também eram vistos como mestres do conhecimento esotérico relacionado à arquitetura, música, poesia, dança e cura. Eles eram criadores inigualáveis, cujos segredos eram zelosamente guardados e passados ​​através da iniciação. Em suma, para Eliade as várias tradições alquímicas conhecidas por nós de todo o mundo devem sua origem, pelo menos em parte, ao conhecimento e prática do antigo ferreiro.

Tempos modernos

O legado moderno da alquimia consiste em disciplinas experimentais como a química, assim como aquelas ciências aplicadas que visam aproveitar os recursos naturais, minerais e outros da Terra. Também consiste em práticas e técnicas espirituais destinadas a transformar a consciência humana. Assim, as tradições religiosas místicas (orientais e ocidentais), bem como a teoria psicanalítica, são construídas sobre fundamentos alquímicos mais antigos. O reconhecimento do estado limitado e não renovável de muitos dos nossos recursos globais provavelmente estimulará o interesse contínuo na observação cuidadosa do mundo natural e no cultivo de uma consciência global da interconexão humana. Por meio desses esforços, as futuras gerações poderão continuar a construir e levar adiante uma rica herança alquímica.